[Brasília-DF,
EXPOSIÇÃO VIRTUAL DE ARTES PLÁTICAS

RES PÚBLICA, TERRITÓRIO DE UMA MEMÓRIA SINGULAR
Maurício Fridman-Rubinstein



Fragmento nº 01

Na ausência de capacidade em elaborar um comentário abrangete sobre a obra recente de Maurício Fridman, reunidae difundida pelo autror sob o título geral de "res pública, Território de uma Memória Singular", escolhi o caminho da redação de um fragmento de análise , um pedaço de observação ou de percepção da obra, sem o compromisso da completude.

Ao receber o convite do Maurício para tecer alguns comentários a respeito de sua obra recente, veiculada por meio eletrônico, o que primeiro me ocorreu, além do contentamento, foi a possibilidade de traçar um provável parallismo entre essa obra e um filme chinês realizado em 2007 que assisti no início de 2009.

O filme é Wu Yong, traduzido para o inglês com Useless e para o português com Inútil. Dirigido por Jia Zhang-ke, aborda a produção de roupas na China contemporânea. Esse documentário que encerram em si mesmos histórias distintas e autônomas, à semelhança de uma colagem, justapondo as imagens.

Todas as sequências do filma são muito bonitas, com seus retrato múltiplos da China atual tendo como fio condutor a confecção e o uso do vestuários pelos chineses. No entanto duas dessas sequências destacam-se, em especial para a tentativa de analogia com as colagens feitas pelo Maurício.

A primeira, que no filme é uma das finais, registra o trabalho de um alfaiate emuma pequena cidade localizada em uma das regiões de minas de carvão da China.

Em um país que produz grandequantidade de roupa manufaturada de baixo custo para o consumo interno e de todo o mundo, a atividade de alfaiate encontra-se em fase de extinção no s~eculo XXI, à semelhança, por exemplo, da atividade de cinzelador de armaduras de cavaleiros no final da idade média na Europa. É uma atividade cada vez menos necessária. Inútil.

Tendo em suas mãos um bom pedaçode papel em branco, o artista Maurício sabe o que fazer com ele e ns tantos trapos e alguns pdaçõs amassados de papel e papelão recolhidos nas ruas de metrópole de São Paulo, por onde caminha. Distingue e retira do chão público parate do lixo que não foi para a liceira. Fragmentos, talves de uma camisa velha e surrada, de uma folha de caderno escolar usado ou de uma caixa aberta. Todos descartados e desnecessários. Inúteis.

A segunda sequência do documentário destaca-se tanto pelo interesse de analogia qus sugere quanto pelo fato de dar nome ao filma. Ela contém as cenas tomada no estúdio transparente-translúcido da estilista Ma Ke. As cenas recortadas são dos prepativos para a apresentação, que ocorrerá em um evento em Paris, de sua nova marca denominda Wu Yong (inútil). Ma Ke é uma jovem criadora e produtora de roupas artesanais na China industrial de hoje, As roupas que concebe e constura são inustadas por aliarem a clara invenção pessoas ao traço marcante e milenar da indumentária chinesa tradicional.

A coleção que inaugura a nova marca tem uma característica ainda mais peculiar. Toda ela é constituída de casacos muito grandes, grossos e pesados. É inspirada nos antigos guerreios chineses e parece também ser a eles destinada, assim como a seus cavalos, protegendo-os da neve ao percorrerem as grandes distâncias entre as montanhas da China durante o inverno.

Não há nada nessa nova coleção de casacos que possaimaginar como roupa passível de uso no século XXI. Inútil.

Há, por outro lado, um procedimento inédito na produção das peças dessa coleção. Feitas com tecido artesanal especialmente trançado, possuem todas as evidências de roupa nova, durável e de qualidade, que se destinaria a usuários especiais no próximo inverno. Seu desenho, suas proporções e cores, no entanto, remetem a um uso que só seria possível no passado. E para acentuar o passado no tecido do presete, Ma Ke cobre toda sua coleção espalhada pelo chão do estúdio, com argila, com muita terra escolhida e selecionada em uma jazida.

Ela busca, e encontra, i, efeito, uma consequência física e visual semelhante ao que ocorre com o macacão dos mineiros que, mesmo nos dias de hoje, estão diariamente em contato com o carvão das paredes dos túneis no interior das minas da China.

As mãos do Maurício parecem retirar esses mesmos tecidos do meio da fuligem das ruas de São Paulo, e, ao remanuseá-los, buscam recompô-los, aos pedaços, por meio da criação de uma atual coleção de colagem.

Essas cpçagems. como obra virtual e material que são. e que foram produzidas com matéria-prima ja manipulada e jogada fora, remetem-nos a precepção sutil do tempo. De como o transcorrer do tempo transforma as coisa materiais e seus significados. À percepção de como a passagem do tempo transforma também o homem e o siginificado que para si as coisas têm. E evidenciam os procedimentos pelos quais a ação do homem, e do artista em particular, pode transformar radicalmente as coisa e seus significados ao longo do tempo.

Assim, poderia ser outra a denominação geral para o conjunto de dezenas de colagens recentes do Maurício, tal qual um sub ou segundo título: resitros materiais, sensíveis e visuais da passagem do tempo.

E assim como Ma Ke, os chineses e os poetas concretos, Mauricio Fridman sabe bem como sintetizar esses conteúdos e tantos outros em imagens de formas variadas e intrigantes.

Por Antônio Carlos Kfouri é arquiteto, professor da Fau-PUC Campinas e mestre pela Fau-USP

 

 

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